MANIFESTO: CIENTISTAS CONTRA A GUERRA. PELA PAZ, COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

MANIFESTO:
CIENTISTAS CONTRA A GUERRA

PELA PAZ, A COOPERAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO

Vivemos tempos difíceis e perigosos neste nosso planeta, único corpo celeste natural onde se tem conhecimento da existência de vida. Como mulheres e homens de ciência, conhecemos o impacto do conhecimento científico sobre a sociedade, as vidas de cada um de seus membros e sobre a natureza em geral. Sabemos que a ciência é uma faca de dois gumes que nos remete ao simbolismo bíblico da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Os avanços da ciência fundamental se traduziram no acelerado desenvolvimento tecnológico que se acentua a partir de meados do século passado e prossegue em nossos dias. A posse de novos meios para se impor pela força, veio exacerbar a competição entre interesses poderosos que determinam o posicionamento dos Estados-nação na arena internacional na busca pelo controle de territórios e recursos naturais.

A arma nuclear, usada pela primeira vez nos momentos finais da II Guerra Mundial, criou uma situação nova: a possibilidade de, por ação humana, ser posto fim à vida na Terra. O holocausto nuclear é uma ameaça existencial que não deve ser ignorada, especialmente porque no passado o desastre estava próximo de acontecer por erro humano ou falência técnica. Os múltiplos conflitos em curso, ativos ou latentes, a evolução da guerra dita convencional para as formas “modernas” de guerra híbrida ou assimétrica, claramente fruto da aplicação perversa de avanços tecnológicos que a ciência proporcionou, não contribuem para atenuar antes aumentam os riscos de um desvio insensato para o recurso à arma nuclear. Para lá, naturalmente, do cortejo de vidas perdidas e da destruição de bens materiais que toda guerra envolve mesmo sem esse recurso. O tempo presente, é importante notar, é marcado, infelizmente, pela total desconstrução do edifício penosamente erguido nos anos da chamada “guerra fria” e da década que se seguiu, dos tratados bilaterais entre as duas maiores potências nucleares, base da chamada dissuasão nuclear. Hoje estamos vendo uma tendência crescente de militarização das economias que fortalece os complexos militares-industriais movidos pelo lucro e alimenta um ciclo global de conflito, guerra e proliferação de armas. Ciclo desastroso em que são investidos meios e recursos sem comum medida com aqueles que, casuística e tantas vezes irregularmente, são dirigidos ao combate às profundas desigualdades sociais, às privações de toda ordem de que sofrem em seu dia-a-dia milhões de seres humanos, das necessidades alimentares, à saúde, à educação. Carências agravadas pela repetição de eventos climáticos extremos, atribuíveis à atividade humana, que se traduzem em perdas significativas de vidas e danos materiais com profundas repercussões sociais, sobretudo nos países mais pobres.

Acresce que, reconhecidamente, a guerra, os múltiplos conflitos militares – de escala e natureza diferentes – bem como a própria operação de dispositivos militares, mesmo em contextos de ausência de guerra, contribuem significativamente para o agravamento das condições que impulsionam as alterações climáticas.

Entramos num círculo vicioso em que as armas e o rearmamento não são garantia de Paz, mas estímulo de guerra. Nada poderá levar a dissipar as nuvens escuras que se formam e mantêm sobre as nossas cabeças sem um entendimento entre potências que leve a um novo tipo de relacionamento assente no respeito dos interesses vitais das partes envolvidas.

Dada a escala dos perigos atuais e potenciais, inação e aparente neutralidade, eles equivalem a uma cumplicidade passiva. Como cientistas, intelectuais, formadores, e cidadãos, temos o dever, não só de dar o alarme, mas também de nos envolvermos ativamente nos esforços necessários para enfrentar ameaças atuais e futuras. A história nos julgará por nossa capacidade de resistir à lógica da destruição que rege o presente e de construir as condições para um futuro justo, pacífico e viável para todos.

OTC – Organização dos Trabalhadores Científicos

Primeiros signatários

Alexandre Quintanilha, Professor Catedrático (aposentado), ICBAS, Universidade do Porto, Portugal

Amílcar Cardoso, Professor Catedrático (Aposentado), FCTUC, Universidade de Coimbra, Portugal

Ana Costa Freitas, Professora Catedrática Emérita, Universidade de Évora, Presidente AMONET-Associação Portuguesa de Mulheres na Ciência

Ana Maria Silva, Professora Associada (aposentada), Departamento de Física da Universidade de Évora

Ana Nunes, Professora Associada, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Portugal

António Gomes Martins, Professor Catedrático (aposentado), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra, Portugal

António Sampaio da Nóvoa, Professor Emérito, Instituto de Educação, Reitor Honorário, Universidade de Lisboa, Portugal

Augusto Fitas, Professor Associado (aposentado), Universidade de. Évora, Portugal.

Carlos Fiolhais, Professor Emérito, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra

Carlos Mota Soares, Professor Emérito, IST, Universidade de Lisboa, Portugal

Elies Molins, Professor Pesquisador, ICMAB-CSIC, Campus Univ. Autônoma de Barcelona, ​​Espanha, Co-Presidente da FMTS-WFSW

Frederico Gama Carvalho, Investigador Sénior (aposentado), C2TN, IST, Universidade de Lisboa, Presidente OTC, Portugal

Galopim de Carvalho, Professor Catedrático (aposentado), Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Portugal

Guida Veiga, Professora Associada, Universidade de Évora, Portugal

Isabel Castro Henriques, Professora Associada, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Aposentada), Investigadora do CEsA/CSG/ISEG/ULisboa 

Henrique dos Santos Pereira, Diretor, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, Brasil

Jean-Paul Lainé, Maître de Conférences, Universidade de Rouen, Co-Presidente FMTS-WFSW, França

João Cunha Serra, Professor Auxiliar (aposentado), IST, Universidade de Lisboa, Portugal

João Gaspar Caraça, Físico, Academia das Ciências de Lisboa, Portugal

Jorge Ramos do Ó, Professor Catedrático, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa, Portugal

João Rodrigues, Professor Assistente, Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra, Portugal

José Neves, Professor Auxiliar, Departamento de História, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa,

Karin Wall, Professora Emérita de Investigação, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa. 

Leonor Moniz Pereira, Professora Catedrática, Faculdade de Ciências da Atividade Física, Universidade de Lisboa, Portugal ™

Luís Moniz Pereira, Professor Emérito, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal

Luís Trindade, Pesquisador, Instituto de História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanidades, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal

Luísa Schmidt, Socióloga e Professora Investigadora, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa

Manuel Loff, Historiador, Universidade do Porto, Portugal

Marc Delepouve, investigador do Laboratório de História da Tecnociência na Sociedade, Cnam, Universidade de Lille, Paris, França.

Marcelo Gonzalez Magnasco, Presidente da FEDLATCI – Federação Latino-Americana de Trabalhadores Científicos, Argentina

Maria Alice Samara, historiadora, pesquisadora, Instituto de História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal

Maria Eduarda Gonçalves, Professora Catedrática, ISCTE-IUL, Lisboa, Portugal 

Maria João Rendas, Professora Associada (Aposentada), IST, Universidade de Lisboa/ Investigadora, CNRS (França), Portugal

Máximo Ferreira, Astrónomo, Diretor “Centro de Ciência de Constância – Parque Astronômico”, Portugal 

Mehdi Lahlou, Professor da Universidade de Rabat, membro do Secretariado e da Direção Internacional da WFSW, Marrocos.

Michael Gasser, Professor Associado Emérito, Universidade de Indiana, EUA

Mourad Bezzeghoud, Professor Emérito, Universidade de Évora, Portugal

Nuno Castro, Professor Associado, Faculdade de Ciências, Universidade do Minho, Portugal,

Paulo Pereira, Investigador Sénior, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal

Rogério Reis, Professor Associado, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto, Portugal

Rui Namorado Rosa, Professor Emérito, Departamento de Física, Universidade de Évora

Sofia Lisboa, Investigadora, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa, Presidente ABIC- Associação de Bolseiros de Investigação Científica, Portugal

Stuart Parkinson, PhD, Diretor Executivo da organização “Cientistas pela Responsabilidade Global” (SGR), Reino Unido.

Teresa Almeida Cravo, Professora Associada em Relações Internacionais, Faculdade de Economia, Investigadora do Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal

Tiago André Lopes, Professor Auxiliar, Investigador do CEJEIA, Universidade Lusíada, Porto, Portugal

Viriato Soromenho Marques, Professor Catedrático, Centro de Filosofia (CFUL), Escola de Artes e Humanidades, Universidade de Lisboa, Portugal

 

 

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